Com amor: MÃE

De: …..
Para: uma mãe
Se você é mãe, esta carta é para você.

Entre lágrimas, vinha o doloroso depoimento: “não sei o que fazer pra alimentar meu bebê”. Nas entrelinhas, é como se aquela mulher dissesse: “Socorro! Eu preciso que alguém olhe pra mim”.

Vamos falar sobre o outro lado da amamentação? Sou enfermeira com 30 anos de prática em pronto-socorro, sendo 17 vividos em pronto-socorro pediátrico, o que me dá algum respaldo pra começar este texto(ão) falando sobre “zumbis” em vez de nutrizes ou puérperas.

Incontáveis foram as vezes que atendi na porta do nosso hospital mulheres tresnoitadas, travestidas de zumbis: cabelos desgrenhados, olhos encovados, olhares perdidos, boca seca, rostos pálidos, barrigas proeminentes, vestidas com o que servia no pós-parto e com bebês nos braços cansados. Bebês que se esgoelavam de fome, roendo as mãozinhas, ou, já sem forças, desnutridos e desidratados, com olhos arregalados de quem pede ajuda.
Entre lágrimas, vinha o doloroso depoimento: “não sei o que fazer pra alimentar meu bebê”.
Nas entrelinhas, é como se aquela mulher dissesse: “Socorro! Eu preciso que alguém olhe pra mim”.
E nessas horas é fácil dar aquele discurso clássico: “O leite materno é um alimento completo. Funciona como uma vacina. É rico em anticorpos, protege a criança de muitas doenças. È limpo, está sempre pronto e quentinho. A amamentação favorece um contato mais íntimo entre a mãe e o bebê. Sugar o peito é um excelente exercício para o desenvolvimento da face da criança, ajuda a ter dentes bonitos, a desenvolver a fala e a ter uma boa respiração. Reduz o peso da mulher mais rapidamente após o parto. Ajuda o útero a recuperar seu tamanho normal. Reduz o risco de desenvolvimento de câncer de mama e de ovário.”… blá blá blá.
Todo esse discurso, com certeza é baseado em evidências científicas e está certíssimo, mas atrás destes dois peitos, de mamilos fissurados e sangrando, de mamas ingurgitadas, existe uma mãe que, desesperadamente, quer alimentar sua cria recém-nascida, quer acalentar seu bebê, quer dar-lhe amor, e ao mesmo tempo, quer a aprovação da sociedade, e quer provar pra ela mesma que ela é capaz.
Porém, a maternidade, não é redondinha pra todas. Na maioria das vezes, ela vem cheia de desafios e dificuldades.
Para que a amamentação ocorra de forma efetiva, é preciso uma série de fatores: hormonais, psíquicos, sociais, ambientais, culturais, etc, etc.
Amamentar é mais que um ato de amor. É um ato de fé. É preciso acreditar que você pode, que você vai conseguir e que você está fazendo o seu melhor, ainda que todos à sua volta, digam o contrário.
Amamentar é sobreviver aos palpites (que são muito diferentes de conselhos – saiba filtrá-los).
Amamentar é aceitar ajuda (pra posicionar a criança, pra lavar a louça, pra tirar a roupa da lavadora e colocar no varal, pra tomar um banho de cinco minutos, pra tirar uma soneca de quinze).
Amamentar é entender que, além de sermos frutos de nossas escolhas, também somos produtos de nossas histórias e das histórias de nossos antepassados.
Amamentar é reconhecer limites e superá-los quando possível, caso contrário, aceitá-los.
Amamentar é criar vínculos com o bebê, mas sem esquecer que o que produz o vínculo, é o que está atrás dos peitos – o coração, e que o olho no olho é a melhor estrada para atingi-lo.
Amamentar é dividir suas angústias e medos com quem está do seu lado: seu companheiro, sua mãe, sua sogra, sua amiga. São raras as pessoas que conseguem ler entrelinhas, e os homens têm ainda mais dificuldade neste quesito, então, fale!
Amamentar é livrar-se da culpa que nasce junto com o bebê. É fazer-se leve, acreditando que esta é sua melhor versão.
Amamentar, finalmente, é descobrir que bebês não vêm com manual de instrução, mas que você é dotada de intuição, e intuição é a voz de seu pensamento lógico, ou o sussurro de seu anjo da guarda, ou o sopro do Universo tentando te iluminar nesse caminho cheio de curvas, que é a maternidade.
E se você for aquela mulher que, por algum motivo, não conseguiu amamentar seu filho, lembre-se: uma mãe não é só peito.
Escrito por: Rozeli Emilia Fidelis
Enfermeira, mestra em segurança do paciente e… MÃE.

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